Retrospectiva literária de 2025

(Os livros que me conquistaram este ano)

Desde que comecei a acompanhar a comunidade literária nas redes sociais, meu momento favorito é este: quando o ano acaba e a gente compartilha nossas melhores leituras ou maiores decepções. Sempre saio com vontade de ler várias coisas novas, então espero que esta edição da newsletter proporcione o mesmo para você.

Não vou falar especificamente de todos os livros, meu foco é naqueles que me marcaram mais ao longo do ano, mas sintam-se livres para me perguntar o que achei de algum sobre o qual acabei não falando. Recomendo a leitura de todos os livros citados aqui porque eles têm o mérito de terem me mantido interessada até o final. Se eu fizesse uma lista de tudo o que abandonei em 2025, a gente teria livro pra caramba, porque ultimamente estou nessa de só ler até o final se de fato estou gostando da leitura. Não é por menos que termindo dando 4 ou 5 estrelas para a maioria.

No fim, meu saldo é:

Foram 30 livros, exatamente a minha meta do Goodreads, e uma maioria esmagadora de romances. Muita fantasia também, porque esse continua sendo meu gênero literário favorito. E vários livros sáficos, meus queridinhos.

Não vou rankear os livros aqui porque vivo mudando de opinião e acho muito difícil comparar algo que li em dezembro e está fresco na memória com um livro lido lá em janeiro. Entretanto, tenho algumas listas, começando por:

Melhores sáficos:

  • Full Shift, de Jennifer Dugan e Kit Seaton, é uma HQ que parece ter sido feita para mim. Temos uma lobisomem adolescente tentando e falhando em conciliar dois mundos, de um lado sua matilha e do outro o dia-a-dia como uma estudante que tem um crush na melhor amiga humana. Tessa, a protagonista, não gosta nem um pouco de ser lobisomem e não consegue controlar a própria transformação, o que só ficou pior depois de ela ter perdido o pai para o câncer e de entender que a licantropia não garante invencibilidade a ninguém (na verdade, ela pode até piorar as coisas). Esse livro fala muito sobre o luto e me emocionou bastante, principalmente porque minha namorada também perdeu o pai para o câncer e, por isso, a dor da Tessa parecia ainda mais real (afinal, eu vejo o espelho dessa dor na pessoa que eu amo). HQs tendem a ser uma leitura rápida, mas eu me vi apreciando cada página, me demorando nos detalhes e nas ilustrações, que me lembraram a vibe de Crepúsculo e Lua Nova. Acho que o ritmo da história foi perfeito e deixou para trás a sugestão de um universo rico e cheio de potencial, o que eu amo. Estou animada para ler a outra HQ das autoras, Coven, que se passa no mesmo mundo.

  • O cara que estou a fim não é um cara?!, de Sumiko Arai, foi tudo o que eu esperava e sustentou o hype das várias fanarts que temos das protagonistas. Como a história é originalmente publicada online, os capítulos são curtos e com bastante tempo se passando entre alguns deles, de modo que a gente parece acompanhar apenas vislumbres do dia-a-dia das personagens. Ainda assim, essa história da menina que se apaixona por um funcionário da loja de CDs sem saber que ele é, na verdade, a garota que senta do lado dela na escola conquistou meu coração. A história é simples, mas os detalhes a elevam a um novo patamar. Eu amo como a narrativa é comprometida com a temática da música como conexão e isso faz ainda mais sentido quando nos lembramos de que elas são duas adolescentes que se sentem deslocadas. Quando eu tinha essa idade, também era a música que me oferecia um lugar seguro, junto com os livros. Também adoro a representação da dinâmica butchfemme e sinto que estamos acompanhando o surgimento de um clássico da literatura lésbica. Além disso, as ilustrações e o estilo desse mangá merecem um prêmio, o green yuri tem uma estética irresistível.

  • Duelo de damas, da Marina Basso, é um livro que amo sem nenhuma neutralidade. Sim, fui beta-reader da história e, sim, a Marina é uma das minhas melhores amigas. Mesmo assim, peço que confiem em mim e deem uma chance para esse livro. Ele acompanha três linhas do tempo diferentes na vida de enxadristas que se apaixonam enquanto se enfrentam. É uma história delicada sobre pertencimento e crescimento. Ele tem toda a vibe de Gambito da rainha, incluindo a ambientação de época, mas com aquele diferencial de se passar em Santa Catarina e de focar no romance entre as duas mulheres. Sou obcecada pelos diálogos desse livro, principalmente pelas provocações que se entrelaçam com as partidas de xadrez. Ah, e ele não está mais disponível na Amazon por enquanto, mas vai voltar a agraciar o mundinho literário em breve.

  • If you still recognize me, de Cynthia So, é outro Young Adult, um que li no início do ano e no qual ainda penso. Nele, a gente tem duas ex-melhores amigas, Joan e Elsie, se reencontrando e embarcando em uma viagem para que Elsie possa fazer um grande gesto para a garota por quem é apaixonada, Ada. Isso envolve Elsie entrar em contato com uma antiga paixão da avó de Ada e também confrontar o ressentimento e os sentimentos que nutre por Joan, que voltou de Hong Kong muito diferente da garota que ela conhecia. Eu amo a representatividade butch nessa história e como ê autorie também explora os termos lésbicos usados em Hong Kong e o contexto histórico dessa identidade. O livro também retrata muito bem a relação de Elsie com o universo das fanfics, o que o tornou ainda mais especial para mim. Ele tem tudo o que eu amo nos livros jovens adultos e é por causa de livros assim que, mesmo com quase 30 anos, eu continuo apaixonada por YA.

Continuando…

Melhores contemporâneos (que não são sáficos):

  • Impostora, da R. F. Kuang, é uma sátira deliciosa (e frustrante) do mercado literário. É uma leitura viciante, com o ritmo de um thriller, e por isso pode conquistar leitores mesmo de fora do bookmundo, apesar de seu humor ser tão nichado. A história é a seguinte: uma autora amarela morre, deixando para trás um manuscrito, que a protagonista, autora branca, rouba e publica como se fosse dela. E daí em diante é ladeira abaixo. Esse é um livro que a gente lê odiando a protagonista e torcendo para ela se foder, cada passo em falso dela é uma vitória. Ao mesmo tempo, o monólogo dela e sua jornada de publicação são familiares até demais. Tudo nesse livro que parece exagero é o tipo de coisa que de fato acontece no mercado literário. Eu fiquei apaixonada pela escrita da Kuang e pela maneira como ela escolheu retratar o mundo de autores, editores, agentes e leitores. Gostei especialmente de como ela não parece se excluir da crítica e do quão lúcido o livro é mesmo em seus momentos mais loucos. Uma leitura obrigatória para quem trabalha no mercado editorial.

  • Nem te conto, da Emily Henry, talvez seja meu romance favorito da autora? Não sei, vou precisar reler De férias com você para confirmar. De todos os livros da Emily Henry, Nem te conto tem a melhor premissa: o noivo da Daphne cancela o casamento para ficar com a melhor amiga dele, então ela se vê sem ter para onde ir e acaba morando com o ex da tal melhor amiga, o Miles. Depois, é claro que os dois ainda vão acabar fingindo um relacionamento pra causar ciúmes e mostrar que superaram, né? Esse livro, meus amores, é a prova de que tropes literárias nunca se tornam batidas se forem bem aproveitadas. Essa junção de proximidade forçada, de uma amizade inesperada e de fake dating é ouro. Eu também gostei muito da Daphne como protagonista e do fato de que o Miles é meio que um perdedor, e é isso o que o torna único. Aqui a gente tem um interesse amoroso maconheiro e sofredor, que fica ainda melhor por ser um pouco patético. Gostei muito de ver os dois saindo do fundo do poço juntos e também da ambientação em uma cidadezinha do Michigan.

  • Eu não sou Jessica Chen, da Ann Liang, é um Jovem Adulto clássico, sobre autoaceitação e crescimento, com uma pitada de realismo mágico pelo fato de que a protagonista, Jenna Chen, um dia deseja ser sua prima, Jessica Chen, e acorda para descobrir que esse pedido foi atendido. Esse é outro livro impossível de largar justamente porque o mistério nos mantém interessados até o final. Ele fala sobre o preço da perfeição e sobre como a gente nunca consegue se enxergar com clareza, mas o mesmo é válido para as pessoas que admiramos. Me deixou tensa e emocionada na mesma medida conforme Jenna se esquecia de si e, ao mesmo tempo, via as pessoas ao redor dela se esquecendo de quem a verdadeira Jessica Chen era.

  • Heated Rivalry, de Rachel Reid, está na lista de leituras de muita gente, inclusive da minha. Depois de ver o trailer da série, eu fui sedenta para o livro e não me decepcionei. Sou apaixonada por romance esportivo justamente porque amo quando a gente soma os riscos e a competitividade de um esporte à tensão do casal. Além de gostar muito do papel que o hóquei tem na narrativa, eu genuinamente sou apaixonada pelos dois protagonistas (mais ainda depois de ver a série, que considero ainda melhor do que o livro) e acho que a autora soube aproveitar muito bem as cenas de sexo. Foi… interessante ouvir esse livro enquanto eu estava no aeroporto cercada de pessoas, precisei ter muita fé nos meus fones de ouvido. Hesitei bastante em ler o segundo livro, The long game, mas acabei cedendo e talvez, no fim, tenha gostado até mais dele. Tenho minhas ressalvas, principalmente em relação ao início desse segundo livro, mas a maneira como os conflitos surgem e são resolvidos me deixou satisfeita e emocionada. Amo os livros, amo a série, amo Hollanov e vou correndo ler fanfics enquanto espero pela segunda temporada.

Agora, a categoria que tem meu coração:

Melhores fantasias:

  • The Everlasting, de Alix E. Harrow, é o meu coração. O melhor livro de 2025. Um dos melhores livros de fantasia que já li. O tipo de livro que eu terminei de ler e já quis reler. Ele é uma exploração da relação entre uma lenda e uma nação — e também a história de amor entre uma figura lendária e o historiador que volta no tempo para garantir que a tragédia dela se concretize. Apesar de esse ser um romance duárico, esse livro também é deliciosamente queer e nenhum dos personagens se identifica totalmente com o gênero designado a eles. Foi a primeira vez que li esse tipo de dinâmica em um romance e estou completamente rendida a eles. Sério, só de escrever isso já sinto o coração apertar de saudade. Ah, e essa é a minha contribuição para a categoria “mulheres em armadura”, que estava em alta este ano. Espero ler sobre outras cavaleiras, mas duvido que alguma chegará aos pés de Sir Una Everlasting.

  • Parceira, da Ali Hazelwood, entregou tudo o que prometeu. Eu já tinha amado Noiva e, mais uma vez, me diverti horrores com o universo sobrenatural da Ali. Ela é uma das poucas autoras que consegue aproveitar bem os tropes que eu amo nas fanfics (sim, gente, eu leio omegaverse) e adaptá-los para um romance tradicional sem eu sentir que falta algo. Achei muito engraçado como os capítulos desse final são apenas sexo, mas também achei tudo muito bem escrito e, considerando o conflito da história, essa organização e o ritmo da narrativa fazem sentido. Confesso que eu não esperava gostar muito desse casal, porque nenhum dos personagens me conquistou quando apareceram em Noiva, e tô feliz de ter errado nessa previsão. Serena e Koen são perfeitos um para o outro e eu achei a dinâmica deles muito única e pautada no respeito. Queria, inclusive, ter mais umas duzentas páginas dos dois.

  • O castelo animado, de Diana Wynne Jones, é um clássico por um motivo, né? E esse motivo é: que delícia de livro! Eu já sou apaixonada pela animação do Studio Ghibli, mas o livro é ainda melhor (e mais diverso, devo comentar). Amo esse tipo de fantasia que tem um universo meio de conto de fadas, em que a magia é inusitada e abstrata. Ler esse livro é igual tomar um chá quentinho no inverno ou pular na piscina no meio do verão. Refrescante e aconchegante na mesma medida. Se tornou um dos meus favoritos da vida.

E, sem mais delongas, vamos aos (poucos) livros que me decepcionaram este ano:

Os piorais

  • Uma correnteza sufocante, da Allison Saft, tinha tudo para ser um grande livro: escrita cativante, atmosfera sombria, casal sáfico e um mundo fantástico que te suga desde a primeira página. O único problema é o que o final é horrível. Não é só ruim, é horrível mesmo, do tipo que joga pela janela os temas do próprio livro. Até as páginas finais, por exemplo, era um rivals to lovers com slow burn, mas os últimos capítulos apressam demais o relacionamento das duas para dar um final que nem era necessário (sério, eu ficaria feliz com apenas um beijo). Mas o pior é que o livro todo parece questionar o regime de poder em questão, só para no final os personagens se conformarem a ele. Fico triste porque sei que, com tempo e mais páginas, a autora conseguiria escrever um final digno para o livro. Para mim, ele é uma prova de que o calendário de publicações que apressa os autores está nos roubando de livros melhores.

  • The ride of her life, da Jennifer Dugan, é sobre uma moça da cidade que herda o sítio da tia e tem a intenção de vendê-lo, mas não esperava se apaixonar pela mulher que cuida do lugar. Eu queria muito gostar, por isso persisti, mas no fim é só mais um livro sáfico genérico em que a personalidade de uma protagonista é “loira” e da outra é “morena”. Estou um pouco cansada da dinâmica grumpy x sunshine porque ela parece ser uma desculpa para não criar personagens verdadeiramente complexos, o que é o caso desse e do próximo livro desta lista. Terminei não gostando muito de nenhuma delas e muito menos das duas como casal. Pra completar, o conflito do livro tem uma solução tão óbvia que é frustrante e faz com que a protagonista pareça boba por demorar a percebê-la.

  • Wake up, Nat & Darcy, de Kate Cochrane, é um romance entre duas ex-jogadoras de hóquei, a loira e a morena, a grumpy e a sunshine. A relação das duas é um pouco mais complexa do que no caso do livro anterior, porque elas tiveram um caso durante a faculdade e, depois de terminarem, se tornaram rivais no esporte. Agora, precisam colaborar em um programa de TV para cobrir as Olimpíadas de Inverno, e o público rapidamente percebe a química entre elas e começa a shippar. Eu gostei bastante do início do livro, mas confesso que ele não me cativou porque as duas não têm uma personalidade bem desenvolvida e os conflitos que surgem, principalmente o último, só demonstra que elas não deveriam ficar juntas (e que uma delas sequer tem a maturidade para um relacionamento).

E é isso, esses foram os livros que me marcaram e que consigo dividir em categorias para recomendá-los a vocês. Tenho outros 5 estrelas que acabei não colocando nos melhores, mas que são incríveis mesmo assim. Li muitos audiobooks graças à minha assinatura do Storytel e ao fato de que consigo ouvi-los enquanto lavo louça e limpo a casa. Se não fosse por isso, eu leria muito menos, porque é difícil encontrar tempo na rotina para ler um livro físico ou um e-book. Ainda assim, espero que ano que vem eu me esforçe mais para criar esse tempo e ler sem culpa, sem ficar pensando no que eu deveria estar escrevendo dos meus próprios livros ou nos afazeres que deixei pela metade.

Também estou pensando em trazer edições mensais da newsletter com “destaques do mês”, algo assim, para não precisar concentrar todas as minhas recomendações em uma única edição de fim de ano. Assim, também posso recomendar outras coisas, como filmes, séries e até fanfics. É o tipo de conteúdo que adoro consumir de outras pessoas, então espero também poder contribuir compartilhando os meus favoritos.

Ah, e me contem se nós temos leituras em comum este ano e quais são os seus favoritos. Eu vou adorar saber, sério.

Lembrando que em 2025 eu lançei dois livros, Feras em campo e As novas românticas. Espero que eles tenham feito parte do seu ano ou que sejam fortes candidados à lista de livros para ler no ano que vem. Foi muito especial compartilhar essas histórias com vocês e vê-las se tornando favoritas de algumas pessoas. E, garanto, ainda vem muita coisa boa pela frente.

Te desejo um 2026 de muitas possibilidades e leituras maravilhosas!

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