Os ingredientes para um bom romance esportivo

Um guia nada definitivo para quem quer escrever (ou ler) romances com esporte

Com o sucesso da série canadense Heated Rivalry e o lançamento do livro no Brasil pela Editora Alt, está mais do que na hora de eu, como grande nerd de romances esportivos, dar alguns pitacos.

Como vocês sabem, escrevi e publiquei dois romances com esporte, Feras em campo e As novas românticas, ambos sobre jogadoras de futebol. Fora isso, também consumo muitas histórias nessa temática, abrangendo fanfics, animes e livros. E li muita coisa boa, mas também muita coisa péssima.

Decidi fazer este pequeno guia para romances esportivos por pura nerdice da minha parte. Se você confia em mim e gosta dos meus livros, também dá para levar isso como uma série de conselhos que podem te ajudar a reconhecer um ótimo romance esportivo e até a escrever um. Mas nada disso é regra ou mesmo universal, é tudo opinião minha, e nisso a gente pressupõe que muitos leitores vão discordar de alguns desses pontos.

Por causa de Rivalidade Ardente, eu genuinamente acredito que o interesse das pessoas por romances esportivos vai aumentar em 2026, principalmente no nicho de histórias queer — já que os romances esportivos héteros estavam em alta mesmo antes da série ser lançada. Ainda assim, estou tentando não superestimar esse interesse dos leitores, porque acredito que a maioria das pessoas quer Rivalidade Ardente mesmo, só ele, e não necessariamente explorar mais desse subgênero.

Fica a dica desses três romances bem diferentes uns dos outros, mas que amo igualmente

De qualquer forma, fico muito animada acompanhando esse hype. Me sinto o Tarzan apresentando a selva para a Jane. Bem-vindos ao mundinho do romance esportivo! Aqui vão as melhores coisas que ele tem a oferecer:

1. Uma nova obsessão

Parece que achei ouro toda vez que encontro uma fanfic de um ship que amo em um universo alternativo de esporte. Já naveguei por áreas onde nunca imaginei que fosse me aventurar: fórmula 1, hóquei, tênis, futebol americano e por aí vai. Tudo para ver os personagens que amo exalando tesão no vestiário, vivendo um romance cercado pela mídia e regado a competitividade.

E o que aprendi com isso? Não importa qual é o esporte, não de verdade. Eu leria sobre qualquer esporte desde que a pessoa que escreveu seja obcecada por ele.

Algumas vezes, a autora gosta tanto daquela modalidade e a descreve tão bem que eu me torno obcecada durante a leitura. E ganho meu dia toda vez que alguém fala que sentiu isso em um livro meu.

Isso não quer dizer que só quem acompanha muito aquele esporte, ou mesmo quem pratica, pode escrever sobre ele. Na verdade, longe de mim dizer o que os outros podem ou não fazer. Mas dá para sentir quando o autor ama e respeita o esporte, e também a ausência disso.

Por exemplo, Kulti, da Mariana Zapata, é um romance que muitas pessoas amam, mas que falha em todos os aspectos como romance esportivo. Para quem não sabe, a protagonista do livro é uma jogadora de futebol e o mocinho é um ex jogador, agora treinador dela. E eu juro para vocês que a autora não se preocupou em entender nem regras mais básicas do futebol.

Para além das regras, Kulti falha em abordar o futebol feminino como um todo, a política e as verdadeiras lutas da modalidade, em um nível em que aquilo é tão esvaziado que eu me sentia lendo sobre uma fraternidade (daquelas de universidade norte-americana) e não sobre um time.

Às vezes, não é nem sobre entender as regras de um esporte, porque a maioria dos leitores nem vai saber sobre elas. É sobre amar o suficiente aquele esporte para que ele importe. Importe para a história, para as personagens e, enquanto a história durar, para o leitor.

Sempre lembro de quando a Marina Basso, minha amiga, estava escrevendo Duelo de Damas, o romance dela entre enxadristas (que logo vai sair pela Universo dos Livros). Ela ficou genuinamente obcecada por xadrez enquanto escrevia, jogou várias partidas, pesquisou as manobras mais usadas e entendeu o suficiente sobre as regras e os campeonatos para decidir o que ia manter e em que ponto se permitiria certa licença poética. E é esse estudo somado à paixão pelo esporte — que ela já tinha, mas que aumentou enquanto escrevia — o que torna a narrativa tão inebriante.

Então não se limite a ler (ou a escrever) sobre o esporte que está em alta, porque, de verdade, não é isso o que importa.

Não é sobre hóquei, por causa de Rivalidade Ardente, ou sobre futebol, já que a Copa do Mundo (masculina) é este ano.

Claro, o hype é importante e vamos sentir vontade de ler coisas específicas com base no contexto. Eu, por exemplo, começei a ler um romance entre uma jogadora de hóquei e uma patinadora artística totalmente influenciada pelas Olimpíadas de Inverno. Só que, no geral, eu recomendaria dar uma chance para todo tipo de esporte, mesmo aqueles que não chamam a sua atenção na vida real.

O que vai fazer diferença é o carinho e o cuidado com que o esporte é retratado, e existe algo mágico em um livro capturar seu interesse por uma modalidade que nunca tinha chamado sua atenção antes.

Da minha parte, sigo obcecada por futebol feminino, o que significa que eu lançaria um novo livro com essa temática mesmo sem a Copa do Mundo — inclusive a de 2027, que vai ser aqui no Brasil —, mas juro que estou expandindo os meus horizontes e buscando outros universos esportivos nos quais mergulhar, só pra dar uma variada.

2. O esporte faz parte do contexto

Dizer que o esporte precisa ser importante não significa que os jogos vão ser narrados (embora eu ame isso também), mas que o contexto do esporte importa, que faz diferença os personagens serem atletas.

Heated Rivalry (ou Rivalidade Ardente) é um ótimo exemplo disso. O foco está sempre no casal e na dinâmica entre eles — nos encontros às escondidas, na expectativa que precede cada um deles —, mas essa dinâmica é regida pela rivalidade de seus times e pelo papel que eles desempenham na mídia por causa disso. Na série, a gente até assiste a alguns jogos, mas no primeiro livro isso é bem reduzido, porque a autora prefere manter o foco nas conversas (e nas pegações) dos personagens. Mesmo assim, o esporte está em todo lugar, como uma vibração no plano de fundo.

Isso também acontece de maneira sutil. Se estou lendo um romance mais erótico, adoro quando as partidas são usadas como prenúncio das cenas hot, as mesmas emoções, o mesmo foco no corpo. Se é um romance YA, acho lindo ver como o esporte é parte da descoberta e da identificação das personagens (como é o caso em You don’t have a shot).

E vale lembrar que o esporte está sempre ligado com política.

Os conflitos de Rivalidade Ardente funcionam justamente por causa do racismo e da homofobia no universo do hóquei, mas os conflitos seriam outros se o casal principal fosse sáfico, por exemplo, porque a política do hóquei feminino e as lutas dessa modalidade são diferentes. Ignorar as lutas políticas de cada esporte faz com que a história pareça deslocada, vazia, e eu prefiro o tipo de livro que parece consciente de si, mesmo que aquelas lutas não estejam relacionadas ao conflito principal vivido pelos protagonistas.

3. As regras não importam tanto assim

Não, as regras daquele esporte não importam muito — elas ainda importam, só não é tanto quanto algumas pessoas podem imaginar.

Quando estamos lendo, um bom romance esportivo nos dá o suficiente para entendermos o que está acontecendo e conseguirmos imaginar o resto. Enquanto leitor, não acho que você precisa pesquisar como o esporte funciona, mas se você ama muito aquele livro pode, sim, se beneficiar de entender melhor como são organizadas as competições e quais são os objetivos do esporte.

Agora, enquanto autor, você precisa entender como o esporte funciona justamente para saber o que ignorar e o que pode enriquecer o livro. Só tem que tomar cuidado para não tentar usar tudo e explicar tudo, para não deixar o texto denso. Afinal, não é um documentário. A gente tem que se permitir certa liberdade criativa, lembrando sempre de que o romance vem primeiro, não o esporte.

Em As novas românticas, por exemplo, eu deixei de lado várias competições e premiações, porque o livro já tinha muita coisa e estava enorme sem isso. Em Feras em campo, decidi me concentrar em narrar um campeonato estadual, apenas dando indícios do contexto nacional do esporte, para não tirar o foco do conflito entre as protagonistas. Ainda assim, tomei o cuidado de não fazer uma personagem levar dois cartões amarelos e continuar jogando (hello, Mariana Zapata), porque isso não existe.

Só acho importante salientar que não entender sobre um esporte não deveria ser um motivo para não ler sobre ele. Ficar perdida em alguns momentos da leitura faz parte, como se aquela modalidade fosse meio inventada. E a gente nunca sabe quando um livro vai nos presentear com uma nova obsessão.

4. Found family

Ah, a tal da família que não é de sangue.

Eu amo a forma que essa trope toma nos livros com esporte, o modo como nos faz torcer por cada equipe, não só pelos protagonistas individualmente. Não acho que seja um ingrediente obrigatório, mas é sempre uma delícia de encontrar.

Um bom exemplo disso, inclusive, é The Long Game, o segundo livro que acompanha a história dos protagonistas de Rivalidade Ardente. Enquanto no primeiro livro a gente não observa muito da dinâmica entre os times, no segundo isso é mais relevante para a história, mostrando o contraste entre uma equipe que não aceita o Shane como ele é e outra que acolhe o Ilya como se ele fosse parte a família.

Sempre tento trazer um pouco disso para os meus livros, porque acho que esse aspecto de found family tem ainda mais importância em narrativas LGBTs. Em livros, a gente não consegue explorar um grande elenco de personagens — diferente do que acontece em animes do gênero, por exemplo —, mas eu acho delicioso sair daquele padrão de falar apenas sobre as protagonistas e mais uma melhor amiga para cada uma.

5. Uma infinidade de tropes

Além de found family, existem muitas tropes e dinâmicas que podem ser exploradas.

Existe o famoso rivals to lovers (rivais a amantes), que, para mim, está em seu habitat natural nos romances esportivos. Mas a dinâmica de colegas de time, também é uma delícia, com o adicional da proximidade forçada que pode dar lugar a só tem uma cama, já que os times tendem a viajar muito e os atletas muitas vezes se veem obrigados a compartilhar o quarto de hotel.

Sei que muita gente ama outras dinâmicas, como de treinador e atleta. Essa eu odeio com todas as forças, mas entendo o apelo. O que eu amaria ver são histórias que sejam entre treinadores de times rivais, focando em aspectos que a gente não vê tanto nos romances esportivos, já que estamos acostumados a ler sobre os atletas sendo protagonistas.

Sei que muita gente acredita que o excesso de tropes está enfraquecendo as histórias, mas tropes sempre existiram na literatura e em outras mídias, a gente só não tinha o costume de dar nome a elas e de usá-las na divulgação dos livros. As tropes não surgiram com as fanfics, como muita gente diz, e usá-las não vai fazer com que uma história pareça fanfic — não que isso seja um problema, os melhores romances com esporte que li estão nas fanfics.

Dá para você pensar naquelas cenas que AMARIA ver em um romance esportivo e procurar por livros que tenham um grande potencial de ela se concretizar, as possibilidades aqui são infinitas. E, na hora de escrever, não tenha medo do clichê. A gente sempre pode deixar tudo com a nossa cara, e um clichê bem executado é como um abraço.

Em conclusão…

Em um romance esportivo, permita que o esporte seja o condutor dos conflitos, não apenas uma jogada de marketing para vender o livro. É muito potencial para não ser aproveitado, e é frustrante quando não faria diferença se o protagonista fosse um atleta ou um advogado.

Deixei algumas recomendações de livros ao longo do texto, mas tem várias histórias que eu poderia mencionar e muitas delas ainda estão na minha lista de leituras. Espero que esta edição tenha te inspirado a dar uma chance para mais romances esportivos e a ler sobre algum esporte de fora da sua zona de conforto. E, se descobrir algum livro incrível, me conta! Quando se trata de romance esportivo, sempre arrumo espaço para mais um.

Um abraço e te vejo no futuro!

Reply

or to participate.